Comunicado da Diretoria da SBN sobre residência médica em Neurocirurgia e qualidade do neurocirurgião formado no Brasil

Nos últimos anos, temos nos deparado com a abertura indiscriminada de faculdades de medicina no Brasil e, paralelamente, com a abertura de inúmeros serviços de residência médica, nas diversas especialidades médicas.

Claramente, havia uma carência de médicos e também de especialistas no Brasil. Isso é fato inconteste. Entretanto, o que era para ser uma expansão racional e programada tornou-se um exagero, um verdadeiro mercado de faculdades e, mais grave ainda, passando a ser utilizada como moeda de troca de favores políticos.

Essa abertura desenfreada criou um fato inusitado: passamos a ter muito mais faculdades de medicina do que países mais populosos, como a China, a India e os Estados Unidos. Estabelece-se então uma nova relação, onde o Brasil passa a formar 35 mil médicos por ano, para um crescimento populacional de 1,7 milhões de novos habitantes (0,77% ao ano), ou seja, um novo médico para cada 500 novos habitantes, bem abaixo do preconizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), de um médico para cada mil habitantes.

A neurocirurgia brasileira também não ficou atrás desse processo de expansão de ofertas de vagas de residência médica. Hoje, temos no Brasil aproximadamente 650 residentes em formação, distribuídos em mais de 100 serviços de residência médica, quase o mesmo número dos Estados Unidos, economia com o PIB dez vezes maior que o nosso.

Acreditamos que o debate na neurocirurgia brasileira não deva ser focado apenas na quantidade de profissionais em formação no País, mas sim na qualidade do neurocirurgião que está sendo preparado atualmente. Dentro desse prima, o papel da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia-SBN deve ser de órgão regulador e fiscalizador da qualidade da formação neurocirúrgica no Brasil, uma espécie de “agência reguladora” do segmento. Diante disso, Algumas decisões importantes estão sendo tomadas pela Diretoria e pelo Conselho Deliberativo da Entidade para lidar com essa situação:

Uma medida inicial importantíssima foi a aproximação da SBN com a Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM) do Ministério da Educação, cuja gestão atual compartilha da mesma preocupação com a qualidade dos médicos especialistas formados no Brasil. Essa parceria muito salutar tem trazido bons frutos, como uma fiscalização mais apurada dos serviços, a aprovação do chamado Manual do Residente em Neurocirurgia e o surgimento de proposta de unificação de serviços, num modelo de “residência médica em rede”. Essa idéia de aglutinação de serviços está sendo estudada para ser implantada em algumas cidades brasileiras.

Uma decisão lúcida do seu Conselho Deliberativo foi a constituição de uma comissão especial, para elaboração de novos critérios para formação de neurocirurgiões, dentro de uma ótica mais contemporânea, estabelecendo inclusive ranqueamento dos serviços existentes.

A terceira medida está relacionada ao trabalho desenvolvido pela Comissão de Credenciamento da SBN. Ela terá, ao longo desse ano, um papel mais proativo e preventivo, fiscalizando um número bem maior de serviços, evitando que hospitais sem as mínimas condições necessárias continuem dando diplomas aos seus residentes.

A quarta e última ação da SBN está voltada para um olhar mais apurado na abertura de novos serviços de residência médica. Nesse tópico, faz-se necessário um maior explanação do que vem acontecendo, para que possamos fazer uma reflexão mais aprofundada do tema.

É de conhecimento de todos que alguns serviços foram criados com motivos menos nobres, como a utilização da mão de obra dos residentes para “tapar buracos” em hospitais privados, onde preceptores do serviço tem atuação. Ou até mesmo, por puro capricho de alguns chefes de serviços, que criaram residências em hospitais de poucos leitos, sem um número mínimo adequado de neurocirurgias para formação do residente. São os apelidados “chefes de serviço de leito único”. Obviamente e felizmente, isso não é a regra, mas sim a exceção.

Assim como uma escola, onde o sentido da sua existência é o aluno, a residência médica não deve existir para valeidade do preceptor, mas sim com o nobre propósito de formar um bom neurocirurgião.

Assim como um cidadão que decide ser pai e acha que essa tarefa se restringirá apenas a colocar o filho no mundo, sem se preocupar com a sua educação e o seu crescimento, acontece também com serviços que decidem abrir residência, mas, no meio do caminho, não tem condições de mantê-la, abandonando os residentes à própria sorte.

Foram assuntos recorrentes nesse ano de 2017 residentes insatisfeitos com a qualidade de seus serviços de residência médica. Os do segundo ano, aqueles que estão tendo o contato inicial com a neurocirurgia, tem sido os mais queixosos. Reclamam da Entidade, alegando que perderam dois anos das suas vidas, por acreditarem que a chancela da SBN garantiria uma qualidade razoável para o serviço por eles escolhidos, mas que, na prática, estava bem abaixo das expectativas.

Aos neurocirurgiões da SBN que solicitam abertura de novos serviços de residência médica cabe uma forte reflexão na tomada dessa decisão e no compromisso a ela atrelado.

Entendam que a razão maior da residência é o residente e não o preceptor.

Entendam também que estarão formando cidadãos críticos, compromissados com a comunidade em que vivem e com o bem estar da população e não apenas especialistas e técnicos “de sangue frio”.

Deixem de lado a vontade de ser chefes, apenas por capricho individual e compreendam que os candidatos à residente de neurocirurgia são jovens sonhadores e esperançosos, que se dedicam intensamente a essa carreira e não podem ser decepcionados no meio da jornada, desperdiçando anos de suas vidas. Não transformem seus sonhos em uma quimera.

Esses são os nosso alertas! Esses são os nossos apelos!

São Paulo, 02 de janeiro de 2018.

Diretoria SBN

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